The Rising Phoenix


NOVO BLOG

FÊNIX EM VERSO E PROSA


Estou mudando o Blog para o Wordpress, que tem mais ferramentas, mais recursos e funciona melhor.

Assim, o novo endereço é: http://versoeprosa.wordpress.com/

Vou migrar aos poucos os posts antigos para lá. Como não há um sistema de migração, vai ser um trabalho um pouco demorado, mas um dia terminarei.


Espero vocês lá!



Escrito por Rising Phoenix às 02h22
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A MALDIÇÃO DA RASPA-DE-TACHO

I.
em meu banheiro mora
uma lagartixa
pequena e gordinha
mas perversa
tem uns olhinhos pretos
é quase graciosa
e só aparece
quando estou sozinha

chamo ajuda
vem a Marlene
toda prestativa
e não é que a fingida
finge que vai embora
e se esconde, esperta,
na dobradiça?

então, volta sorrateira
à hora noturna
me espreita
apavora meu banho
e o sono me agita
com medonhos pesadelos

II.
ontem fiquei doente
doía a cabeça
doía a barriga
calafrios e febre
parecia a malsã

disse minha irmã
- vá já pro hospital!
não quero não
tenho medo de agulha!

- ah, você vai, sim!
ela é mais nova
e brava como a peste
mas eu sou teimosa
ninguém manda em mim

ouça, irmã
eu fui muito obediente
tomei banho caprichado
apesar da lagartixa
tirei o pijama
vesti roupa de gente
calcei até sapato
mas a suposta dengue
em dengo e preguiça
me prende à cama!

- ANDA LOGO!
ela nem se comove
com a minha rima
faz cara feia e briga
coisa de caçula

viro de lado
fecho o olho
e durmo de novo
"amanhã tudo passa"
coisa de ruiva

não é que a Marina
danada e vingativa
de pura pirraça
me roga praga?

por toda a noite
em sonho me aterroriza
a gordinha maligna
pérfida lagartixa!



Escrito por Rising Phoenix às 11h09
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WWW - A LIBERTAÇÃO

E-book de Assim falava Zaratustra, de F. Nietzsche. Clique aqui

De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. (...)


E todos os meus pensamentos e esforços tendem a condenar e a unir numa só coisa o que é fragmento e enigma e espantoso azar.

E como havia eu de surportar ser homem, se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!

Redimir os passados e transformar tudo, “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim. (...)

Realmente vive uma grande loucura na nossa vontade; e a maldição de todo o humano é essa loucura haver aprendido a ter espírito.


Escrito por Rising Phoenix às 07h55
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A VIDA DO POETA TEM UM RITMO DIFERENTE

Aos amantes da poesia, faz-se necessário visitar o site do Vinícius de Moraes. Nele, é disponibilizada toda a obra do excepcional "Poetinha". E é possível criar sua própria Antologia Poética, com até 60 poemas ou textos - e ainda a compartilhar com amigos. Aliás, é possível criar mais do que uma antologia. Maravilha!

A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
E a sua alma é uma parcela do infinito distante
O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. (...)


Vinícius de Moraes



Escrito por Rising Phoenix às 07h44
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MÁSCARA

nos dias de luto
deixo os mortos
à terra

maquiagem é escudo
o preto nos olhos
vela a perda

pinto o rosto
como quem vai
à guerra



Escrito por Rising Phoenix às 23h30
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AN IRISH AIRMAN FORESEES HIS DEATH

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

William Butler Yeats



Escrito por Rising Phoenix às 23h13
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YOU'RE LONG GONE

Keane - A Bad Dream

 

I wake up, it's a bad dream
No one on my side
I was fighting
But I just feel too tired
To be fighting
Guess I'm not the fighting kind
Wouldn't mind it
If you were by my side
But you're long gone
Yeah you're long gone now



Escrito por Rising Phoenix às 23h05
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MALOGRO

o dia que amanhece
me estapeia a cara
ofereço a outra
submissa
resignada à gaiola

adivinho lá fora
prismas no céu
imensidão, liras
a fala solta
e um encontro

entre o anseio
e a dúvida
e se for o mundo
mais estreito
que meu sonho?

e se meus pés
passam a chumbo
impedindo o vôo
zeladores
do meu cativeiro?

súbita
enrijeço o corpo
elevo o rosto
explosão e força
estendo as asas

em estrondo
se rebentam no metal
arrancam ruivas
e crespas lascas

fragmentos de ferro
em brasa
queimam minha pele
assinalando em fogo
estas sardas

tristes marcas
da minha clausura



Escrito por Rising Phoenix às 23h23
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ORANGISH LAND

green bubble joy lost ground
dark phoenix rests unfound



Escrito por Rising Phoenix às 11h53
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ERRO INTERNO DO SISTEMA

Por motivos insondáveis e misteriosos, o Blog não está aceitando comentários muito longos. Após tentar submetê-los, o pobre leitor recebe a seguinte mensagem: Atenção: Erro interno do sistema.

É o blog.uol



Escrito por Rising Phoenix às 10h35
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S.O.S.

no gris e chuvoso dia
alastra-se a multidão
pela avenida
casacos escuros
caras enfadonhas

vago pela calçada fina
e castigada
sinto a garoa fria
e gelada a alma

oprimida
cresce minha angústia
as pessoas se esbarram
no cruzamento
em forçada proximidade
na farmácia, na esquina
na populosa cidade

sobe à garganta
grito de socorro
que, asfixiada, engulo

sofro em cada minuto
agônico e arrastado
pela tarde medonha

durmo o quanto posso
eu durmo muito
eu durmo pouco
o sono é insuficiente
dura menos que a morte

espero um plano
ou resgate
estimulante, eletrochoque
remédio ou simpatia

solução ou acordo
que me salve
do demônio apático
não-eu odioso
que habita por ora
meu corpo



Escrito por Rising Phoenix às 18h33
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VIVER COM A INTENSIDADE DA ARTE

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

Paulo Leminski



Escrito por Rising Phoenix às 13h34
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LÁGRIMAS OCULTAS

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Adélia Prado


Escrito por Rising Phoenix às 23h51
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SOFRO O AMOR PEQUENINO DOS OLHOS E DAS MÃOS

Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memoria
Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam – nada permanece para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passado, passando, passando...

Vinícius de Moraes - "O Incriado"

(Para o Mario)

Escrito por Rising Phoenix às 19h15
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BERNARDO GUIMARÃES

Indicação do Romério Rômulo

"hoje a cronópios publica "o elixir do pajé" do bernardo guimarães, edição do tião nunes e minha de 1988. escrevo a introdução. te convido a dar uma caminhada por lá. o bernardo foi um porra-louca."


Fui lá conferir. Estendo o convite do Romério a vocês todos. Vale a pena. Mas, que vão só os de alma aberta para a poesia erótica-cômica. Pudicos podem se espantar.

Para dar boas risadas e fugir do convencional, cliquem aqui

Escrito por Rising Phoenix às 19h07
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TWILIGHT

come join my darkness
you'll find a treasure
uneven one
but still treasure



Escrito por Rising Phoenix às 01h01
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ECO E REFLEXO

não existias
senão sob meu olhar
pois vivi para te adorar
e te compor
apesar de teu desamor

mas, outro dia
contou-me o bem-te-vi
desde que parti
tua existência é opaca
teu vulto ausente
e tua alma pardacenta

se já não te penso
não respiras
sem pisar meu corpo
como alçar o Paraíso?

teu espelho d'água,
Narciso,
eram os meus olhos



Echo and Narcissus
John William Waterhouse, 1903




Escrito por Rising Phoenix às 00h29
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INTROSPECÇÃO

Nuvens lentas passavam
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo.

Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida
A dor da treva que vive na minha alma.

Vinícius de Moraes


Escrito por Rising Phoenix às 23h40
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DESVIO PADRÃO

teu nome é erro
e se variam os corpos
na dança do desejo
após o gozo
abro os olhos
e reconheço
tua natureza de engano

em minha série de desvios
e equívocos
teu nome é o mesmo
acrescido de dígito
romano ou arábico
- és erro sistemático

são os algarismos
absolutos ou relativos
integrando e derivando
o repetido engodo

será nove, doze
ou sete
o número mágico
que se multiplica
até o infinito?

teu nome é erro
traduzindo em matemática
o meu desacerto



Escrito por Rising Phoenix às 18h17
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PROCRASTINAÇÃO

é preciso ter alma
antiga
e não se consumir
em fúria

procrastinar é a arte
de torturar o presente
e condenar o porvir

que não se confunda
com preguiça
é o contrário do ócio
a alma se ocupa
com a tormenta
e a culpa

salga a luxúria
o sabor de pecado
é o sofrimento antecipado
pelo esforço da labuta

em lados opostos
uma contenda
castiga a carne
inércia e dever
em franca disputa
e a alma arde

procrastinadores, un-...
não!
deixemos a união
para mais tarde

...


(Para M.)



Escrito por Rising Phoenix às 17h17
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DOS PROCRASTINADORES ASSUMIDOS

Primeiro eu escrevi o poema. E depois, a Mari me enviou a imagem.

 

Daonde veio esta há muitas outras imagens bacanas - clique aqui



Escrito por Rising Phoenix às 17h12
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QUIMERA

não te conheço
e te carrego
em colar de ossos
no avesso da pele

quero sóis amarelos
a vida em vermelho
mas escurecem minha casa
névoa e brumas

busco, assombrada,
tua imatéria
em perdição e anseio
no gume do desejo
amanheço em procura

e tu és idéia


Escrito por Rising Phoenix às 23h54
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TE DOU DE MIM O QUE COUBER TUA MÃO

um corpo pode ser muito tamanho
se lhe carregam um lastro tão maior
que o tempo. lhe devora as entranhas
o nu ressequido, extirpado, nuvem
de gafanhotos da noite.

tamanho corpo, nu, pode ser noite,
se a alma rasa sobrar só em calúnia,
se a boca nua se extirpar em pedra,
se o rasgo do ouvido for espaço.

(extirpar o cancro salgado do olho)

Romério Rômulo

Fonte: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3028


Escrito por Rising Phoenix às 13h56
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JOGRAL

À beira do penhasco, sentiu-se levemente embriagada pela altitude e o ar rarefeito; mexeu os pés em direção ao fundo, imaginou que caía: entorpecida, desejou que seu corpo tombasse, desejou sentir o pânico, o vento frio, o baque. Deixou-se ir. Um galho impediu sua queda - e como em filme, você apareceu com sua mão forte, pronto para me salvar. Era seu dia de folga e deleitava-se com a sensação da pele contra os lençóis sedosos e o colchão macio, enquanto tentava resgatar fragmentos do estranho sonho que a despertara. Não sentiu vontade de ser salva, a despeito do medo - ou talvez por causa do medo, ah! era finalmente sentir algo, o inusitado, o inesperado, o que ia além do conforto e da tepidez dos seus dias seguros.

Aquele que lhe oferecia resgate era o noivo, seus olhos carinhosos, a mão que relutava em aceitar, ah! foi porque ele sorriu, suspirou perplexa ao se lembrar do sonho e dos dentes dele, eram enormes, brancos e ameaçadores. Deus, era como se ele tivesse 45 dentes! E sorriu ao se deparar com o número estranho que atribuía aos dentes do noivo. Ainda por cima é ímpar e um deles deve-lhe sair espetado do céu da boca, riu ainda mais. Decidiu se levantar e arrumar a casa, o que lhe traria paz e faria esquecer o absurdo, mas bem que ele parecia um canibal bem alimentado - e a gargalhada silenciosa sacudiu de leve seu ventre.

Organizando e limpando, eficiente e laboriosa, em movimentos suaves e precisos, era assim que se acalmava. Procurar significado no pesadelo é irracional, repete a cada vez que o noivo e sua dentadura sonhada voltam a lhe incomodar. Encontrou sobre a mesa o papel que ontem recebera enquanto jantava com ele, ao final das aulas. Eram ambos professores e compartilhavam o apreço pela austeridade, uniam-nos afinidades intelectuais. Era como se ele apascentasse seu espírito irrequieto. Será que aplainar minha alma é o que realmente me torna feliz? Suspirou, afastou o cabelo da testa suada, é bom ter um amor que não me cega, não me segue por todos os cantos. É bom, repetiu. Apanhou o papel que o Menestrel lhe entregara, aproximando-se suavemente da sua mesa. É quase como se ele se movesse sem deslocar o ar, ele parecia sobrenatural e tinha cabelos longos; teve medo dele, estremeceu involuntariamente, o noivo fez menção de oferecer dinheiro, ela se encolheu. É apenas um trovador, não seja tola, agradeceu e sorriu.

Não conseguia reconstituir o rosto dele, só a cintilância dos olhos de águas profundas, rútilos de musgo, algas, mistério e, oh! reconhecimento. Estremeceu novamente, era como perder a razão, como se fosse marionete e perdesse seus fios condutores, os membros lassos e desacostumados da liberdade. Firmou a vista para ler os versos, "do tempo em que nós dois sonhávamos" - incrédula, ofegante, apertou o papel, leu sofregamente, reconhecendo as palavras, isso não é possível!, amassou a folha em fúria, atirou longe - não é possível! Recitou as últimas palavras daquele poema que era seu, "tua certeza definindo meu nome e meu norte", que ela mesma escrevera quando ainda acreditava, revirou os armários, a pilha de papéis, os lenços, um vestido antigo - achou seu caderno, virando em desespero as páginas amareladas, até encontrar. Caiu de joelhos, alisou o papel amarfanhado do Menestrel, Deus, o que é isso? Este homem leu a poesia que escrevi há duas décadas, este homem adivinhou o que a ninguém jamais mostrei, Deus!

O reconhecimento - então era isto que chamejava nos olhos dele. Colocou o vestido antigo, que datava da época das suas poesias, e saiu em busca dele, daquele homem trovador de cantos compassados, o Menestrel que versa na cadência das minhas rimas secretas e por mim espera na praça larga à frente da Catedral, os sinos cantam e me convocam, é hora.

***

Confiável como relógio, sua ausência foi imediatamente percebida. O noivo alarmou-se, as outras professoras espantaram-se, a diretora o enviou em busca dela. À sua casa, encontrou a porta aberta, a cama desfeita, os armários revirados: pensou em tragédias, em sequestro, chamou logo a polícia.


***

Sob a árvore da praça, viu o Menestrel, o cabelo dele é bonito e tem a mesma cor do sino, brônzeo e antigo, a praça era um paraíso de ilusões, pedras roladas, os tijolos envelhecidos da igreja, o cheiro verde e escuro das folhas, os bancos e as histórias entrelaçadas de nós todos, e agora também a minha.

Postou-se em frente ao homem. Ele moveu ligeiramente a cabeça, como se assentisse. Chamou-a pelo nome.

Ela foi.


Escrito por Rising Phoenix às 02h42
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PROCURA-SE DINHA

amor sincero

homens servidos às bandejas
pra mim
não quero.
quero
antes o amor sincero:
boca calada, olhos quietos.

homens servidos às bandejas
pra mim
não quero
quero
antes o amor sincero:
um mito criado, um antigo mistério.

homens servidos às bandejas
pra mim não quero.
quero
antes o amor sincero:
plantado na chuva e colhido no inverno.


"Também lançado pelo Edições Toró, Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, lança pela Global seu primeiro livro de poesias De passagem mas não a passeio, com prefácio da escritora carioca Elisa Lucinda. Formada em letras pela USP, Dinha começou a escrever em fanzines literários, os quais produz até hoje. Moradora até o ano passado da favela de Vila Cristina, no bairro Parque Bristol, assim ela se apresenta em seu livro: 'Dinha é educadora, mediadora de leitura, fanzineira, mãe da Katrine e representante da literatura produzida nas periferias do Brasil afora.' "

Para adquirir o livro, eis o contato da autora: dinhapro@hotmail.com


Nota: o email da Dinha não funciona. Não consegui nenhum contato dela, nem buscando pelo Currículo Lattes, já que é mestranda da FFLCH-USP. De qualquer forma, segue o endereço para um arquivo em PDF com 5 páginas de poesias dela:

www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/02/Poesias/PoesiasDinha.pdf


Escrito por Rising Phoenix às 20h27
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O SEGUNDO TRABALHO

urge em mim a vida
que tive senão em imaginário
dissoluta e fragmentada
em diálogos, suspiros e desatino

por Atena fui maldita
sou Medusa
do meu cérebro em torvelinho
se faz o serpentário
é família, é minha mãe e meu ninho

concebi meus filhos e meu irmão
em idéia
valsam murmúrios incessantes
minha cabeça rodopia
em júbilo e gozo
ébria

cientes de sua glória
sussurram, exigem
confundem-se em minha voz
reclamam espírito
e essência

dobra meu ventre o parto
agonizo e me divido
dou vida a elas

vêm de nascença
criaturas incompletas:
sou agora Hidra de Lerna
sete cabeças em desvario

rompe-se a cerca da berma
cativa dos meus rebentos
alcanço o punhal

minhas mãos são poucas
e o discurso é vário
entre todos os gritos
já não identifico
minha cabeça imortal

e vai meu corpo desgovernado
com suas cabeças de serpente
uma sente calor, outra frio
a outra cala, a última mente

chego ao espelho
faca em riste
minha face reconhecerei
pelos olhos tristes
e o desalinho do cabelo

em golpe arrazoado
a cabeça nua e reluzente
vão mortos os ofídios
e exorcizados meus entes



Escrito por Rising Phoenix às 14h42
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SOBRE ACURÁCIA

São sete, nove ou doze as cabeças da Hidra?

Responde o Moysés: a primeira vítima da confusão mental é sempre a matemática.

Figura: http://borges.uiowa.edu/vakalo/zf/html/body_the_hydra_of_lerna.html



Escrito por Rising Phoenix às 14h41
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PAIXÕES

Para alguns homens, desejar e querer são coisas completamente diferentes. Tão logo adivinhei tua natureza, enterrei depressa minhas ilusões, não sem antes destruí-las, tal como se faz com vampiros, à luz da realidade. Enterrei a sete palmos e já não perdia uma sinapse para compreender teus motivos. Sadicamente, surgi para ti como uma aparição infernal, enfeitada com uma beleza implacável e com a distância que só uma mulher rejeitada sabe colocar. Rejeitada, mas que se sabe desejada; isso, provoca um desprezo que quase não sei contar. Desprezo por ver um homem consumido por um desejo que se nega a consumar. Desprezo que eu sinto por todos os seres que têm medo de aceitar e enfrentar o que a vida traz.

Muitas vezes, é perceptível a forma como a intensidade do desejo sacode teu corpo e não é clichê dizer que teus olhos ardem. Mas, a mulher rejeitada sabe assumir postura sedutora, ainda que fria. É sádico e é prazeiroso. Uma pequena agressão que é quase um afago e que tem beleza, como os espinhos da rosa. No mínimo contato físico, no beijo social de boa noite, as mãos ávidas querendo mais. Que eu nego, com prazer, com a luxúria da vingança, da revanche. Então, quem não deseja e não quer, sou eu.

Os seres humanos são mesquinhos e eu não fujo à regra.

Deparado com a minha reticência, teu espanto. Tua dificuldade em lidar com seus sentimentos, que dificuldade em olhar, aceitar e enfrentar. A surpresa te leva a falar e admitir os sentimentos que tentaste soterrar. Tuas palavras causam-me desgosto. Ou melhor: menosprezo. Um pouco de náusea que sinto ao ver um homem grande, crescido, adulto e maduro assumindo o temor perante a vida. Este homem que me olha com olhos de paixão, que mal controla as mãos ante a intensidade do desejo que lhe assola o corpo e que eu, perversamente, nego e nego.

É com prazer que deito em ti meu olhar agudo. Intensamente, cutucando, revirando, com meus incisivos olhos amarelos. É com gosto que te vejo desconfortável ao ter desnudo e revelado teu segredo - a covardia. Eu gozo teu momento de desconforto - este que ardilmente provoco. Nunca subestime uma mulher rejeitada. Ela é pérfida.

Incontido, tuas mãos em garra, ferozes, apertam meus braços e dizes que me queres inteira, em todos os lugares, de todas as formas. Mas não vais - e sorrio. Quero beijar-te com a força de quem dá um tapa na cara, dizes assim e me agarras com mais ardor. Mas não vais, eu repito, gélida. Como quem te come, como quem te engole, como quem te estapeia a face e volta a estapear com as costas da mão, assim quero beijar-te e te possuir, insistes, em fervor maldito. Mas não vais, disse, deixando reticências no ar. E as reticências significam: não vais porque não tens coragem. Minhas reticências são farpas pontiagudas, ou lascas afiadas que se enterravam no teu corpo que anseia, provocando a dor aguda, lancinante e pulsante. Latejando, qual caco de vidro sob a pele inflamada.

E a mulher que enxerga a covardia por trás da armadura do homem, pode ser (in)voluntariamente cruel. A crueldade existe porque ela viu o que o covarde esconde a todo custo. A verdade é que é cruel. E o reconhecimento da verdade leva a mulher a sentir nada além de repulsa pelo covarde.

A covardia deforma o homem.

Uma mulher rejeitada é atroz.


Escrito por Rising Phoenix às 18h00
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AOS PARES

E nossas mãos.

Eu te perturbo porque preciso. Incomodo-te cônscia da necessidade que me move: perturbar-te é imperativo para que mantenha viva minha essência e não me torne, eu mesma, arremedo de quem sou. Como tu, que carregas como cruz os desejos a que não te permites, a vida que te negas e tudo aquilo que preciso ver para não me transformar no que mais me assusta: tu.

Tudo em nós é duplo, dúbio, antagônico e complementar. Somos extremos que se complementam e se repelem. Eu te amo, mas te odeio e tens em ti o que me encanta e repudia. Tudo em nós vem aos pares, gêmeos opostos, como nossas próprias mãos: a destra e a esquerda, imagens quase espelhares de si mesmas – duas.

Coerente à nossa natureza, perturbar-te vem como dor e prazer. É com prazer de quem se vinga que inflijo os pequenos golpes na organização do teu dia-a-dia. É com melancólica doçura que me redimo das minhas vilezas. É com raiva que aceito teu perdão, mesmo precisando tanto da tua presença dupla, a que me ampara e a que me rejeita.

Tua existência vem à minha vida em dois níveis. Vivemos na superfície de nossos sentimentos e confinamos ao nosso porão todos aqueles sentimentos que não podemos soltar. Escondemos, obscuros, uma coleção de monstros subterrâneos e conversamos fingindo não ouvir seus urros. Que importa que clamem, que bradem? Importa é que no primeiro nível se conserve a calma enganadora da nossa não-relação. A verdadeira e monstruosa relação vai continuar confinada ao calabouço clandestino e escuro do que não se consuma.

Vivo como se tivesse tua mão sobre mim, ora a apoiar, ora a rejeitar. Duplo, dupla, par, que sina é esta que nos persegue? Tua mão a me guiar, a equilibrar meus passos inseguros. Esta mão que garante a tua presença perene, resistindo às perturbações que não me canso de cometer. Tua mão garante que estás a um grito de distância: “Vem!”, te suplico, “Vem que quase caio” e moves tua força silenciosa a me acudir.

E, também, também, também!, tua mão a sacudir, impiedosa: “Acorda que a vida urge e não tens mais tempo para ilusões”. Implacável, tua mão é o grito que me tira do devaneio e me obriga à ação. “Anda!”, assim me apressas, “anda”, é assim o estalo do tapa, “Olha o corpo contíguo à esta mão que te castiga, olha bem o corpo que tanto queres e que te nego! Isto é o que não queres para ti! Não há tempo para quedar-te inerte. Anda!”.

Vês que esta tua mão talvez seja minha? E já nem sei mais o que é teu, o que é meu, o que acontece, o que sonho. Sei que preciso andar, sei que preciso dar voz ao uivo atormentado que se cala em meu peito. Sei que os sonhos estão lá, a espera do meu movimento.

E “lá” é um lugar a que se chega com dificuldade, mas a que se chega. Não é terra regada com leite e mel. É terra que demanda semente, cultivo constante e depois floresce. É terra fértil sob mãos laboriosas e perseverantes.

Queres juntar às minhas tuas mãos fortes? Há tanto espaço, “lá”, na terra em que nossos sonhos podem florescer; há espaço para nós, para a monstruosidade do nosso desejo, para a largura do nosso amor. Vem, minha voz agora te chama, vem comigo, quero mais do que tuas mãos, traz também teu corpo junto ao meu, que anseio tanto pelo teu calor, tua pele, teus olhos; vem!

Vem que viver é mais do que isto que temos agora.

Vem que viver parecer ser um sonho possível.


(Revisto. Original de 07/09/2006)

Escrito por Rising Phoenix às 17h01
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RAZÃO DE SER

Se isso não dá a razão de ser do meu Blog, nada mais o fará.

Sobre o "PERDEDOURO":


"Renata,

Voltei, e voltei e voltei a esses versos lindos e cheios de mistério que você escreveu. Acredita que, com eles, refiz mentalmente a história de minha avó? Refiz, mesmo - sem nenhuma fidelidade aos originais. Continuou sendo uma história triste, mas agora com uma pitadinha de sentido. Morreu sozinha, em Botucatu. Sempre usou esmalte vermelho, bem vivo.

Engraçado o que é a escrita, não é, não? Seus versos partiram de um lugar que continuam desconhecidos para mim, e chegaram a um lugar que é desconhecido para você. E, no entanto, apesar disso, comunicamo-nos perfeitamente.


Escreva sempre. Adorei.

João Vergílio"


Escrito por Rising Phoenix às 09h20
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GRAFITE

se antes de ser mulher
tivesse sido poeta
cantaria minhas perdas
como quem celebra

desatinos versados
rimando na tua falta
meus cânticos e hinos

limitada pela palavra
périplos tristes em torno
da ausência componho

poeta inconclusa
no meu verso desenho
este xis áspero e violento

um xis negro grafitado
   com meu sangue coagulado


Escrito por Rising Phoenix às 21h09
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SONETO

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

Chico Buarque


Escrito por Rising Phoenix às 15h08
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ALERTA VERMELHO

Aos possíveis leitores: este blog não é autobiográfico. Sem a restrição de obedecer à cronologia, à ordem e ao real acontecimento dos fatos, vivo a inebriante liberdade de escrever sobre o que vivi, presenciei e imaginei, sem ter que respeitar suas temporalidades. Escrevo misturando dramaticamente sonhos, visões e, sim, alguns momentos meus. Não será possível distinguir entre ficção e realidade -- pensemos, contudo, que esta distinção seria repressora demais para nossas mentes e almas. Consideremos real o mundo em que penetramos ao ler contos, crônicas e romances, de quaisquer autores. Este é o mundo mágico, que abre as portas do nosso horizonte limitado, que nos leva além das irritantes frustrações da nossa vida. Esse é o mundo da distração. Bem vindos.

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