I. em meu banheiro mora uma lagartixa pequena e gordinha mas perversa tem uns olhinhos pretos é quase graciosa e só aparece quando estou sozinha
chamo ajuda vem a Marlene toda prestativa e não é que a fingida finge que vai embora e se esconde, esperta, na dobradiça?
então, volta sorrateira à hora noturna me espreita apavora meu banho e o sono me agita com medonhos pesadelos
II. ontem fiquei doente doía a cabeça doía a barriga calafrios e febre parecia a malsã
disse minha irmã - vá já pro hospital! não quero não tenho medo de agulha!
- ah, você vai, sim! ela é mais nova e brava como a peste mas eu sou teimosa ninguém manda em mim
ouça, irmã eu fui muito obediente tomei banho caprichado apesar da lagartixa tirei o pijama vesti roupa de gente calcei até sapato mas a suposta dengue em dengo e preguiça me prende à cama!
- ANDA LOGO! ela nem se comove com a minha rima faz cara feia e briga coisa de caçula
viro de lado fecho o olho e durmo de novo "amanhã tudo passa" coisa de ruiva
não é que a Marina danada e vingativa de pura pirraça me roga praga?
por toda a noite em sonho me aterroriza a gordinha maligna pérfida lagartixa!
E-book de Assim falava Zaratustra, de F. Nietzsche. Clique aqui
De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. (...)
E todos os meus pensamentos e esforços tendem a condenar e a unir numa só coisa o que é fragmento e enigma e espantoso azar.
E como havia eu de surportar ser homem, se o homem não fosse também poeta adivinho de enigmas e redentor do azar?!
Redimir os passados e transformar tudo, “foi” num “assim o quis”: só isto é redenção para mim. (...)
Realmente vive uma grande loucura na nossa vontade; e a maldição de todo o humano é essa loucura haver aprendido a ter espírito. Escrito por Rising Phoenix às 07h55
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A VIDA DO POETA TEM UM RITMO DIFERENTE
Aos amantes da poesia, faz-se necessário visitar o site do Vinícius de Moraes. Nele, é disponibilizada toda a obra do excepcional "Poetinha". E é possível criar sua própria Antologia Poética, com até 60 poemas ou textos - e ainda a compartilhar com amigos. Aliás, é possível criar mais do que uma antologia. Maravilha!
A vida do poeta tem um ritmo diferente É um contínuo de dor angustiante. O poeta é o destinado do sofrimento Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza E a sua alma é uma parcela do infinito distante O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende. (...)
I know that I shall meet my fate Somewhere among the clouds above; Those that I fight I do not hate, Those that I guard I do not love; My country is Kiltartan Cross, My countrymen Kiltartan's poor, No likely end could bring them loss Or leave them happier than before. Nor law, nor duty bade me fight, Nor public men, nor cheering crowds, A lonely impulse of delight Drove to this tumult in the clouds; I balanced all, brought all to mind, The years to come seemed waste of breath, A waste of breath the years behind In balance with this life, this death.
I wake up, it's a bad dream No one on my side I was fighting But I just feel too tired To be fighting Guess I'm not the fighting kind Wouldn't mind it If you were by my side But you're long gone Yeah you're long gone now
Por motivos insondáveis e misteriosos, o Blog não está aceitando comentários muito longos. Após tentar submetê-los, o pobre leitor recebe a seguinte mensagem: Atenção:Erro interno do sistema.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne e à memoria Eu sou como velho barco longe do mar, cheio de lamentações no vazio do bojo No meu ser todas as agitações se anulam – nada permanece para a vida Só eu permaneço parado dentro do tempo passado, passando, passando...
"hoje a cronópios publica "o elixir do pajé" do bernardo guimarães, edição do tião nunes e minha de 1988. escrevo a introdução. te convido a dar uma caminhada por lá. o bernardo foi um porra-louca."
Fui lá conferir. Estendo o convite do Romério a vocês todos. Vale a pena. Mas, que vão só os de alma aberta para a poesia erótica-cômica. Pudicos podem se espantar.
Para dar boas risadas e fugir do convencional, cliquem aqui Escrito por Rising Phoenix às 19h07
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TWILIGHT
come join my darkness you'll find a treasure uneven one but still treasure
Nuvens lentas passavam Quando eu olhei o céu. Eu senti na minha alma a dor do céu Que nunca poderá ser sempre calmo.
Quando eu olhei a árvore perdida Não vi ninhos nem pássaros. Eu senti na minha alma a dor da árvore Esgalhada e sozinha Sem pássaros cantando nos seus ninhos.
Quando eu olhei minha alma Vi a treva. Eu senti no céu e na árvore perdida A dor da treva que vive na minha alma.
um corpo pode ser muito tamanho se lhe carregam um lastro tão maior que o tempo. lhe devora as entranhas o nu ressequido, extirpado, nuvem de gafanhotos da noite.
tamanho corpo, nu, pode ser noite, se a alma rasa sobrar só em calúnia, se a boca nua se extirpar em pedra, se o rasgo do ouvido for espaço.
(extirpar o cancro salgado do olho)
Romério Rômulo
Fonte: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3028 Escrito por Rising Phoenix às 13h56
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JOGRAL
À beira do penhasco, sentiu-se levemente embriagada pela altitude e o ar rarefeito; mexeu os pés em direção ao fundo, imaginou que caía: entorpecida, desejou que seu corpo tombasse, desejou sentir o pânico, o vento frio, o baque. Deixou-se ir. Um galho impediu sua queda - e como em filme, você apareceu com sua mão forte, pronto para me salvar. Era seu dia de folga e deleitava-se com a sensação da pele contra os lençóis sedosos e o colchão macio, enquanto tentava resgatar fragmentos do estranho sonho que a despertara. Não sentiu vontade de ser salva, a despeito do medo - ou talvez por causa do medo, ah! era finalmente sentir algo, o inusitado, o inesperado, o que ia além do conforto e da tepidez dos seus dias seguros.
Aquele que lhe oferecia resgate era o noivo, seus olhos carinhosos, a mão que relutava em aceitar, ah! foi porque ele sorriu, suspirou perplexa ao se lembrar do sonho e dos dentes dele, eram enormes, brancos e ameaçadores. Deus, era como se ele tivesse 45 dentes! E sorriu ao se deparar com o número estranho que atribuía aos dentes do noivo. Ainda por cima é ímpar e um deles deve-lhe sair espetado do céu da boca, riu ainda mais. Decidiu se levantar e arrumar a casa, o que lhe traria paz e faria esquecer o absurdo, mas bem que ele parecia um canibal bem alimentado - e a gargalhada silenciosa sacudiu de leve seu ventre.
Organizando e limpando, eficiente e laboriosa, em movimentos suaves e precisos, era assim que se acalmava. Procurar significado no pesadelo é irracional, repete a cada vez que o noivo e sua dentadura sonhada voltam a lhe incomodar. Encontrou sobre a mesa o papel que ontem recebera enquanto jantava com ele, ao final das aulas. Eram ambos professores e compartilhavam o apreço pela austeridade, uniam-nos afinidades intelectuais. Era como se ele apascentasse seu espírito irrequieto. Será que aplainar minha alma é o que realmente me torna feliz? Suspirou, afastou o cabelo da testa suada, é bom ter um amor que não me cega, não me segue por todos os cantos. É bom, repetiu. Apanhou o papel que o Menestrel lhe entregara, aproximando-se suavemente da sua mesa. É quase como se ele se movesse sem deslocar o ar, ele parecia sobrenatural e tinha cabelos longos; teve medo dele, estremeceu involuntariamente, o noivo fez menção de oferecer dinheiro, ela se encolheu. É apenas um trovador, não seja tola, agradeceu e sorriu.
Não conseguia reconstituir o rosto dele, só a cintilância dos olhos de águas profundas, rútilos de musgo, algas, mistério e, oh! reconhecimento. Estremeceu novamente, era como perder a razão, como se fosse marionete e perdesse seus fios condutores, os membros lassos e desacostumados da liberdade. Firmou a vista para ler os versos, "do tempo em que nós dois sonhávamos" - incrédula, ofegante, apertou o papel, leu sofregamente, reconhecendo as palavras, isso não é possível!, amassou a folha em fúria, atirou longe - não é possível! Recitou as últimas palavras daquele poema que era seu, "tua certeza definindo meu nome e meu norte", que ela mesma escrevera quando ainda acreditava, revirou os armários, a pilha de papéis, os lenços, um vestido antigo - achou seu caderno, virando em desespero as páginas amareladas, até encontrar. Caiu de joelhos, alisou o papel amarfanhado do Menestrel, Deus, o que é isso? Este homem leu a poesia que escrevi há duas décadas, este homem adivinhou o que a ninguém jamais mostrei, Deus!
O reconhecimento - então era isto que chamejava nos olhos dele. Colocou o vestido antigo, que datava da época das suas poesias, e saiu em busca dele, daquele homem trovador de cantos compassados, o Menestrel que versa na cadência das minhas rimas secretas e por mim espera na praça larga à frente da Catedral, os sinos cantam e me convocam, é hora.
***
Confiável como relógio, sua ausência foi imediatamente percebida. O noivo alarmou-se, as outras professoras espantaram-se, a diretora o enviou em busca dela. À sua casa, encontrou a porta aberta, a cama desfeita, os armários revirados: pensou em tragédias, em sequestro, chamou logo a polícia.
***
Sob a árvore da praça, viu o Menestrel, o cabelo dele é bonito e tem a mesma cor do sino, brônzeo e antigo, a praça era um paraíso de ilusões, pedras roladas, os tijolos envelhecidos da igreja, o cheiro verde e escuro das folhas, os bancos e as histórias entrelaçadas de nós todos, e agora também a minha.
Postou-se em frente ao homem. Ele moveu ligeiramente a cabeça, como se assentisse. Chamou-a pelo nome.
homens servidos às bandejas pra mim não quero. quero antes o amor sincero: boca calada, olhos quietos.
homens servidos às bandejas pra mim não quero quero antes o amor sincero: um mito criado, um antigo mistério.
homens servidos às bandejas pra mim não quero. quero antes o amor sincero: plantado na chuva e colhido no inverno.
"Também lançado pelo Edições Toró, Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, lança pela Global seu primeiro livro de poesias De passagem mas não a passeio, com prefácio da escritora carioca Elisa Lucinda. Formada em letras pela USP, Dinha começou a escrever em fanzines literários, os quais produz até hoje. Moradora até o ano passado da favela de Vila Cristina, no bairro Parque Bristol, assim ela se apresenta em seu livro: 'Dinha é educadora, mediadora de leitura, fanzineira, mãe da Katrine e representante da literatura produzida nas periferias do Brasil afora.' "
Para adquirir o livro, eis o contato da autora: dinhapro@hotmail.com
Nota: o email da Dinha não funciona. Não consegui nenhum contato dela, nem buscando pelo Currículo Lattes, já que é mestranda da FFLCH-USP. De qualquer forma, segue o endereço para um arquivo em PDF com 5 páginas de poesias dela:
www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/02/Poesias/PoesiasDinha.pdf Escrito por Rising Phoenix às 20h27
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O SEGUNDO TRABALHO
urge em mim a vida que tive senão em imaginário dissoluta e fragmentada em diálogos, suspiros e desatino
por Atena fui maldita sou Medusa do meu cérebro em torvelinho se faz o serpentário é família, é minha mãe e meu ninho
concebi meus filhos e meu irmão em idéia valsam murmúrios incessantes minha cabeça rodopia em júbilo e gozo ébria
cientes de sua glória sussurram, exigem confundem-se em minha voz reclamam espírito e essência
dobra meu ventre o parto agonizo e me divido dou vida a elas
vêm de nascença criaturas incompletas: sou agora Hidra de Lerna sete cabeças em desvario
rompe-se a cerca da berma cativa dos meus rebentos alcanço o punhal
minhas mãos são poucas e o discurso é vário entre todos os gritos já não identifico minha cabeça imortal
e vai meu corpo desgovernado com suas cabeças de serpente uma sente calor, outra frio a outra cala, a última mente
chego ao espelho faca em riste minha face reconhecerei pelos olhos tristes e o desalinho do cabelo
em golpe arrazoado a cabeça nua e reluzente vão mortos os ofídios e exorcizados meus entes
Para alguns homens, desejar e querer são coisas completamente diferentes. Tão logo adivinhei tua natureza, enterrei depressa minhas ilusões, não sem antes destruí-las, tal como se faz com vampiros, à luz da realidade. Enterrei a sete palmos e já não perdia uma sinapse para compreender teus motivos. Sadicamente, surgi para ti como uma aparição infernal, enfeitada com uma beleza implacável e com a distância que só uma mulher rejeitada sabe colocar. Rejeitada, mas que se sabe desejada; isso, provoca um desprezo que quase não sei contar. Desprezo por ver um homem consumido por um desejo que se nega a consumar. Desprezo que eu sinto por todos os seres que têm medo de aceitar e enfrentar o que a vida traz.
Muitas vezes, é perceptível a forma como a intensidade do desejo sacode teu corpo e não é clichê dizer que teus olhos ardem. Mas, a mulher rejeitada sabe assumir postura sedutora, ainda que fria. É sádico e é prazeiroso. Uma pequena agressão que é quase um afago e que tem beleza, como os espinhos da rosa. No mínimo contato físico, no beijo social de boa noite, as mãos ávidas querendo mais. Que eu nego, com prazer, com a luxúria da vingança, da revanche. Então, quem não deseja e não quer, sou eu.
Os seres humanos são mesquinhos e eu não fujo à regra.
Deparado com a minha reticência, teu espanto. Tua dificuldade em lidar com seus sentimentos, que dificuldade em olhar, aceitar e enfrentar. A surpresa te leva a falar e admitir os sentimentos que tentaste soterrar. Tuas palavras causam-me desgosto. Ou melhor: menosprezo. Um pouco de náusea que sinto ao ver um homem grande, crescido, adulto e maduro assumindo o temor perante a vida. Este homem que me olha com olhos de paixão, que mal controla as mãos ante a intensidade do desejo que lhe assola o corpo e que eu, perversamente, nego e nego.
É com prazer que deito em ti meu olhar agudo. Intensamente, cutucando, revirando, com meus incisivos olhos amarelos. É com gosto que te vejo desconfortável ao ter desnudo e revelado teu segredo - a covardia. Eu gozo teu momento de desconforto - este que ardilmente provoco. Nunca subestime uma mulher rejeitada. Ela é pérfida.
Incontido, tuas mãos em garra, ferozes, apertam meus braços e dizes que me queres inteira, em todos os lugares, de todas as formas. Mas não vais - e sorrio. Quero beijar-te com a força de quem dá um tapa na cara, dizes assim e me agarras com mais ardor. Mas não vais, eu repito, gélida. Como quem te come, como quem te engole, como quem te estapeia a face e volta a estapear com as costas da mão, assim quero beijar-te e te possuir, insistes, em fervor maldito. Mas não vais, disse, deixando reticências no ar. E as reticências significam: não vais porque não tens coragem. Minhas reticências são farpas pontiagudas, ou lascas afiadas que se enterravam no teu corpo que anseia, provocando a dor aguda, lancinante e pulsante. Latejando, qual caco de vidro sob a pele inflamada.
E a mulher que enxerga a covardia por trás da armadura do homem, pode ser (in)voluntariamente cruel. A crueldade existe porque ela viu o que o covarde esconde a todo custo. A verdade é que é cruel. E o reconhecimento da verdade leva a mulher a sentir nada além de repulsa pelo covarde.
A covardia deforma o homem.
Uma mulher rejeitada é atroz. Escrito por Rising Phoenix às 18h00
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AOS PARES
E nossas mãos.
Eu te perturbo porque preciso. Incomodo-te cônscia da necessidade que me move: perturbar-te é imperativo para que mantenha viva minha essência e não me torne, eu mesma, arremedo de quem sou. Como tu, que carregas como cruz os desejos a que não te permites, a vida que te negas e tudo aquilo que preciso ver para não me transformar no que mais me assusta: tu.
Tudo em nós é duplo, dúbio, antagônico e complementar. Somos extremos que se complementam e se repelem. Eu te amo, mas te odeio e tens em ti o que me encanta e repudia. Tudo em nós vem aos pares, gêmeos opostos, como nossas próprias mãos: a destra e a esquerda, imagens quase espelhares de si mesmas – duas.
Coerente à nossa natureza, perturbar-te vem como dor e prazer. É com prazer de quem se vinga que inflijo os pequenos golpes na organização do teu dia-a-dia. É com melancólica doçura que me redimo das minhas vilezas. É com raiva que aceito teu perdão, mesmo precisando tanto da tua presença dupla, a que me ampara e a que me rejeita.
Tua existência vem à minha vida em dois níveis. Vivemos na superfície de nossos sentimentos e confinamos ao nosso porão todos aqueles sentimentos que não podemos soltar. Escondemos, obscuros, uma coleção de monstros subterrâneos e conversamos fingindo não ouvir seus urros. Que importa que clamem, que bradem? Importa é que no primeiro nível se conserve a calma enganadora da nossa não-relação. A verdadeira e monstruosa relação vai continuar confinada ao calabouço clandestino e escuro do que não se consuma.
Vivo como se tivesse tua mão sobre mim, ora a apoiar, ora a rejeitar. Duplo, dupla, par, que sina é esta que nos persegue? Tua mão a me guiar, a equilibrar meus passos inseguros. Esta mão que garante a tua presença perene, resistindo às perturbações que não me canso de cometer. Tua mão garante que estás a um grito de distância: “Vem!”, te suplico, “Vem que quase caio” e moves tua força silenciosa a me acudir.
E, também, também, também!, tua mão a sacudir, impiedosa: “Acorda que a vida urge e não tens mais tempo para ilusões”. Implacável, tua mão é o grito que me tira do devaneio e me obriga à ação. “Anda!”, assim me apressas, “anda”, é assim o estalo do tapa, “Olha o corpo contíguo à esta mão que te castiga, olha bem o corpo que tanto queres e que te nego! Isto é o que não queres para ti! Não há tempo para quedar-te inerte. Anda!”.
Vês que esta tua mão talvez seja minha? E já nem sei mais o que é teu, o que é meu, o que acontece, o que sonho. Sei que preciso andar, sei que preciso dar voz ao uivo atormentado que se cala em meu peito. Sei que os sonhos estão lá, a espera do meu movimento.
E “lá” é um lugar a que se chega com dificuldade, mas a que se chega. Não é terra regada com leite e mel. É terra que demanda semente, cultivo constante e depois floresce. É terra fértil sob mãos laboriosas e perseverantes.
Queres juntar às minhas tuas mãos fortes? Há tanto espaço, “lá”, na terra em que nossos sonhos podem florescer; há espaço para nós, para a monstruosidade do nosso desejo, para a largura do nosso amor. Vem, minha voz agora te chama, vem comigo, quero mais do que tuas mãos, traz também teu corpo junto ao meu, que anseio tanto pelo teu calor, tua pele, teus olhos; vem!
Vem que viver é mais do que isto que temos agora.
Vem que viver parecer ser um sonho possível.
(Revisto. Original de 07/09/2006) Escrito por Rising Phoenix às 17h01
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RAZÃO DE SER
Se isso não dá a razão de ser do meu Blog, nada mais o fará.
Sobre o "PERDEDOURO":
"Renata,
Voltei, e voltei e voltei a esses versos lindos e cheios de mistério que você escreveu. Acredita que, com eles, refiz mentalmente a história de minha avó? Refiz, mesmo - sem nenhuma fidelidade aos originais. Continuou sendo uma história triste, mas agora com uma pitadinha de sentido. Morreu sozinha, em Botucatu. Sempre usou esmalte vermelho, bem vivo.
Engraçado o que é a escrita, não é, não? Seus versos partiram de um lugar que continuam desconhecidos para mim, e chegaram a um lugar que é desconhecido para você. E, no entanto, apesar disso, comunicamo-nos perfeitamente.
Aos possíveis leitores: este blog não é autobiográfico. Sem a restrição de obedecer à cronologia, à ordem e ao real acontecimento dos fatos, vivo a inebriante liberdade de escrever sobre o que vivi, presenciei e imaginei, sem ter que respeitar suas temporalidades. Escrevo misturando dramaticamente sonhos, visões e, sim, alguns momentos meus. Não será possível distinguir entre ficção e realidade -- pensemos, contudo, que esta distinção seria repressora demais para nossas mentes e almas. Consideremos real o mundo em que penetramos ao ler contos, crônicas e romances, de quaisquer autores. Este é o mundo mágico, que abre as portas do nosso horizonte limitado, que nos leva além das irritantes frustrações da nossa vida. Esse é o mundo da distração. Bem vindos.